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Surforeggae
Reggae · 2001年12月18日

Confira a entrevista de Bárbara Fálcon com Sérgio Cassiano, vocalista do Adão Negro!

Confira a

 BÁRBARA: Como foi que você começou a se interessar por música? Você tinha algum músico na família?
SÉRGIO: Dizem que meu avô tocava viola, mas eu nunca vi o meu avô tocando viola. A única vez que eu vi o meu avô com um instrumento foi quando ele pegou num instrumento assim, contou as cordas e disse que tinha uma a mais. Então eu acho que ele tocava viola de cinco cordas, mas eu nunca vi não. Quando eu tinha mais ou menos 16 pra 17 anos, eu e Marcos, nós fomos morar no centro da cidade. E era muito próximo do Pelourinho, aquela coisa toda. Vai que aí vem morar como vizinho da gente um rapaz que gostava de violão, gostava de rock, Camisa de Vênus e tal. E aí esse vizinho começou a ensinar violão pra gente, tocando músicas pra gente e tal. Nessa época eu conheci Vitor Hugo, que é baixista da Morrão Fumegante. E Vitor também foi uma referência pra gente porque era um elo com os meninos de Cachoeira (cidade do recôncavo baiano onde nasceu Edson Gomes, Nengo Vieira e Sine Calmon). Por influência dos meninos também eu sempre ouvi música muito boa, sempre ouvi jazz tradicional, reggae, de um modo geral, música negra americana. E aí a gente fez uma banda de rock, eu, Vitor, Marcos (do Adão Negro), Simone (que fez vocal com Edson Gomes). Juntamos a turminha e começamos a tocar e se interessar pela música. Então passamos pelos bares tocando de tudo da música popular brasileira, do melhor e do pior, música baiana do melhor e do pior, em contato com outros artistas daqui também. Vitor já tava tocando com o pessoal do reggae. A gente já conhecia a Remanescentes. A gente já tava próximo dos meninos de Cachoeira, ouvindo ainda, mas não tocando.

 BÁRBARA: E nunca tinham tocado reggae?
SÉRGIO: Não, eu nunca tinha tocado reggae. Eu gostava, tocava assim com Vitor, mas nunca tinha tocado em banda, nunca tinha pensado em fazer uma banda de reggae, com um trabalho voltado pro reggae. Aí a Remanescentes acaba, né? Quando a Remanescentes acaba Sine faz a Sojah com Marcos Oliveira, mas não deu muito certo. Depois eu acabei entrando na Morrão Fumegante por acaso. Entrei por acaso. Aí a Morrão começou a crescer. Eu comecei a entender algumas coisas que eu não entendia. Por exemplo, essa coisa da música demorar muito e da mensagem, de dar mais importância á mensagem. Então eu comecei a entender mais essas coisas. Eu entrei na Morrão Fumegante e fiquei na Morrão Fumegante até perto de gravar o primeiro disco. Aí a gente já tocava freqüentemente, já ganhava alguma grana. Não era uma grana que dava pra pagar a conta de telefone, mas dava pra pagar a conta de luz.

 BÁRBARA: Você acompanhou bem esse processo de crescimento, né?
SÉRGIO: Eu quero registrar isso, que eu toquei na Morrão Fumegante e ganhei um cachê de 50 centavos e bem mais do que isso também. Eu fiquei extremamente satisfeito. Pra você vê a mudança de perspectiva. Eu era um músico, aquele músico que vai, ganha a sua grana.

 BÁRBARA: Você tocou em vários lugares, né?
SÉRGIO: Aí nós tocamos em Cachoeira algumas vezes e Sine começou a tocar em Salvador. E aí a Morrão Fumegante era uma banda que o pessoal gostava, tinha um público já crescente.

 BÁRBARA: Você começou a notar que as pessoas seguiam a banda?
SÉRGIO: Seguiam. Tinha um público já fiel. Fiel e crescente. E eu disse isso pra Vitor: “Vitor isso vai dá certo”. Pronto aí por acaso também, como eu entrei, eu saí da banda. Porque eu tocava com outras pessoas e aí pintou um show pra fazer com alguém e pintou depois desse show, pintou um da Morrão Fumegante na mesma hora e não me acharam pra fazer o show. Aí tocaram sem mim. Aí Kennedy entrou, né? E eu naturalmente fiquei acompanhando o processo. Aí a Morrão gravou, começou a tocar em lugares de maior porte, no Novo Tempo. Aí eu já não tava. Aí chamou a atenção de Cristóvão Rodrigues, essa história toda. Partiram pra gravar o primeiro disco. Mas eu não tava mais querendo sair do reggae. Aí surgiu a história de fazer uma outra banda de reggae, que não o trabalho de Sine, comigo, com Cardoso, com Aurelino baterista. Aí pronto, foi eu, Aurelino Marcos Guimarães, Artur e Sandro, que tocava com Marcos e Artur na noite também. Ensaiávamos e não tínhamos o nome da banda ainda. E fomos colocando algumas músicas.

 BÁRBARA: E as músicas nessa época que vocês ensaiavam eram quais?
SÉRGIO: A gente ensaiou quatro músicas que não vingaram e a quinta música que entrou foi Adão Negro. Depois que a gente ensaiou a quarta música, todo mundo tava procurando um nome e eu liguei pra Guimarães e falei: “Guimarães, eu tô com um nome”.Aí ele falou assim: “Qual o nome da banda?” “Adão Negro”.“Rapaz, muito pesado”.Ele achou pesado. Ele achou pesado, mas o nome ficou vagando. Artur gostou muito, porque Artur estava muito mais engajado na coisa do movimento negro, da contestação indireta e tal. Contestação racial, que vem a ser social, que vem a ser econômica. Artur gostou do nome e aí por falta de outro nome, não pintaram mais nomes que tivessem chamado nossa atenção, aí a gente acabou deixando o Adão Negro, que é uma idéia minha, né? Mas que todo mundo abraçou bem. Aliás, Artur abraçou até bem demais, porque ele fez a música Adão Negro. No que ele fez a música Adão Negro, foi a única que ficou, desse primeiro momento. Nessa época a CD em si era uma novidade no mercado. Então fazer um CD demo era uma coisa que era uma ousadia e também assim, já dava uma outra história, né? E a gente tinha no início, a gente queria montar um repertório um repertório pra tocar. A gente queria montar o repertório logo, queria deixar pra tocar depois. Só que aí aparece o Ska Reggae, o bloco Ska Reggae. A gente tinha deixado um demo lá e aí a gente já conhecia todo mundo, né? O Ska Reggae aí chama a gente pra tocar um final de semana. Nós montamos um repertório, o resto do repertório com muita rapidez, fizemos a apresentação e curiosamente desde esse dia a gente não parou mais de tocar. Aí entrou Valdo, né? Que também é um grande músico, que também conhece muito. Já conhecia muito mais do que a gente de reggae. Valdo sim, já tinha tocado com Rasbuta, já tinha uma banda de reggae chamada Javana, que chegou a gravar um disco, mas que não vingou. E aí pronto, formou mais ou menos essa galera que tá hoje. Depois entrou Dino Cerqueira, que é o dread, que já tocava reggae, mas que também comigo já tocava em outros lugares. Chegou ao ponto de no processo de crescimento da Adão Negro, quando a gente não ganhava grana, todo mundo também tocava em outras bandas. Sendo músico, a gente ia ganhar grana. Eu já tava na faculdade, já comecei a dar aula e parei de tocar com outras pessoas. Então o Adão Negro começou a tocar no Babilônia, de graça. Nesse processo. Daqui a pouco colocamos 1 real. Você acredita nisso? Começou aí. Foi que nem o processo do Morrão. Já tinha um público crescente. O Morrão não tinha estourado ainda, tava naquele processo, estoura, mas não estoura. Mas havia uma grande efervescência, né? E a gente tava no caminho, porque tinha proximidade. Eu acho até que o público via muito essa proximidade que a gente tinha. Isso com certeza favoreceu o Adão Negro em relação a outras bandas que também tavam começando na época. Bandas tão boas quanto, mas que, por essa coisa de talvez está mais distante do que eu chamo de “Centrão”, do pessoal de Cachoeira, o público adivinhava isso de alguma forma e favoreceu muito o Adão Negro, com certeza. No mesmo processo também Cristóvão Rodrigues se interessou pelo trabalho da gente, e foi a mesma história. Foi lançado um disco independente e estamos aí na luta até agora. Falando sobre influência, Valdo diz que eu sou a cara de Nengo (Vieira) e eu concordo. Ele acha que do Adão Negro, eu tenho o pé mais em Cachoeira nas minhas composições.

 BÁRBARA: Você chegou a assistir algum show da extinta Remanescentes?
SÉRGIO: Assisti. Eu assisti Remanescentes na Casa d’Itália... Pois é, eu assisti na Casa d’ Itália o Remanescentes tocando. Então eu tinha um respeito muito grande porque eu via já que eram grandes músicos. Eu me lembro que Rangel (Wesley Rangel, dono da gravadora WR)... A Remanescentes chegou a gravar um disco, né? Na WR e tal. Eles eram muito admirados por Rangel. Até hoje ainda são. E Rangel, quando a Remanescentes se separou ele disse que a “a Remanescentes não se separou, a Remanescentes floresceu”. Porque se a gente olhar Nengo, o trabalho de Nengo é um trabalho todo pronto, né? Não perdeu nada. Sine também, não perdeu nada. Como Marcos Oliveira também. Musicalmente este, músico, talvez seja o melhor executante de todos, Marcos Oliveira. E eu já tinha uma admiração, ainda tenho por todos eles, individualmente, pelo trabalho deles individualmente. De modo que eu acho isso. Eu, do Adão Negro, sou o mais influenciado pela música de Cachoeira, pelo reggae de Cachoeira. Agora, se você for olhar de um panorama geral assim, semelhanças e diferenças, eu sempre fui considerado pelos meninos (de Cachoeira) muito mais urbano. Não sei se urbano. Então Sine, já dentro da perspectiva dele, ele já via que eu não era tão blues, não era tão raíz, não era tão rural, seja qual for a palavra, quanto ele ou quanto Marcos Oliveira. E eu sei que realmente é verdade. Eu vejo não como algo melhor ou pior, mas como uma diferença fundamental. Porque a gente ao mesmo tempo que começou a ouvir Edson Gomes em Salvador, a gente ouvia Metallica, ouvia Iron Maiden, eu ouvia Camisa de Vênus. Eu ouvia um monte de coisas que também me influenciaram muito. Vitor já tinha pilhas de vinis de Van Hallen, de Iron Maiden, de Stevie Vai, Joe Satriani, grandes nomes do rock, de música instrumental assim, que também foram minha influência muito mais direta do que foram pra Sine, pra Nengo e tal. E por isso os meninos me achavam assim. E eu me vejo muito mais assim, urbano. Daí o Adão Negro foi desenvolvendo mais a linguagem com uma formação também diferente. Porque os meninos de Cachoeira tiveram uma influência muito grande da religião, né? Isso dá uma perspectiva completamente diferente á música, a mensagem. Eu era roqueiro mesmo, eu e Guimarães. Eu cortei o cabelo agora, mas a gente era roqueiro. Outra coisa, a escolha dos equipamentos. Sine, Nengo, Marcos Oliveira, estavam muito mais próximos das escolhas dos instrumentos, com aquela sonoridade que era a essência, era a referência. A gente era muito mais solto em relação a isso. A gente utilizava equipamento digital, que dá uma sonoridade completamente diferente. Então por movimentos contrários, convergentes e divergentes, chega que a gente também ouviu HIP HOP. HIP HOP também já entrou no segundo disco do Adão Negro, que tá perto de ser gravado. E a gente também já alcançou um público, por estar na universidade, a gente tocou muito em universidade. A gente tocava pra um público que também já era um público que já tinha uma grande diferença, né? Um público mais urbano, com cabeças diferentes. Então eu acho que, de uma forma geral, isso também influenciou na criação do Adão Negro. Eu acho que o Adão Negro hoje passa por um processo parecido com o da Remanescentes.

 BÁRBARA: Em que sentido?
SÉRGIO: No sentido de que todo mundo tem muita coisa pra falar, todo mundo tem muitas influências. E que o caminho natural seja esse. Artur já tem 20 músicas prontas. Então por exemplo, quando eu fui fazer o Adão Negro, o nome já surgiu já das minhas elucubrações. Eu já via João Guimarães Rosa, eu já tava aqui na universidade. A gente procurava um nome. Eu tava lendo João Guimarães Rosa. Aí lendo tudo que eu podia de João Guimarães Rosa, numa das entrevistas dele, ele diz o seguinte: “Eu não escrevo sobre política porque o escritor que escreve sobre política ele pensa num minuto da história do homem e eu penso mais do que em um minuto, eu penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem”. Aquilo Bárbara, aquilo me deixou... Aí essa coisa da ressurreição do homem havia me encantado. Na mitologia judaico-cristã o início é Adão. O Adão é a figura que representa o início, né? Então o homem ressurgido moralmente, o homem ressurgido intelectualmente, um homem ressurgido precisa ser um homem diferente. Aí eu pensei que Adão tinha que ser diferente. Adão tinha que ressurgir. E aí eu coloquei Adão Negro.

 BÁRBARA: Por que Negro?
SÉRGIO: Por que Negro? Primeiro que eu sabia, intencionalmente que o nome era um nome forte. E eu achava que mesmo não concordando com tudo que o movimento negro dizia, muito precisava ser discutido e eu sabia que colocando esse nome em evidência, muita coisa ia ser discutida. Tanto foi que Marcos achou o nome pesado e Artur adorou. E o nome colocou a gente dentro de um circuito de movimentação cultural na cidade, do movimento negro, de discussões na universidade também. Um nome muito emblemático, né? O pessoal do movimento negro adorou. Vestiu o nome Adão Negro. Era um panfleto, né? O nome Adão Negro incomodou e incomoda muita gente. Eu não posso contar isso numa rádio, nunca conto numa rádio, não dá tempo. Nunca conto em televisão, não dá tempo, mas de uma forma geral, eu coloco assim, que a gente precisava de um nome que abrangesse todos os questionamentos, que pudesse abranger todos os questionamentos que a gente queria colocar e pudesse colocar isso pra as pessoas.

 BÁRBARA: E em relação ao reggae aqui da Bahia, o que você tem a dizer?
SÉRGIO: O reggae, por exemplo, como você conversa com Rick Husband, que não é jamaicano, mas é filho de jamaicano, que teve contato com a música reggae na atualidade fora da Bahia e do Brasil, ele coloca que o reggae na Bahia tá na contra-mão da história, E tem uma gravação do Adão Negro que eu falo isso, que o reggae da Bahia tá na contra-mão da história. Porque a música que é muito mais próxima dessa referência roots é a música reggae que Marley tocava, aliás, o reggae dos anos 70, que é muito forte na Bahia. Um pouco menos forte, com um pouco menos intensidade no Brasil. O Natirrutis também fala assim, que a música de Brasília é música de raíz, e que a gente já não acha tão raíz, como a gente também já não acha tão raíz, da nossa perspectiva, a música do Maranhão. Mas a música reggae no Brasil tá na contra-mão da história. No mundo todo ninguém mais toca esse tipo de música que a gente toca. E eu acho bom. Acho bom porque cria uma situação, cria um estado de coisas que vai plasmar uma música única. Como foi o caso do samba-reggae. Uma série de fatores, como a reafricanização do carnaval de Salvador, junto com o acesso que os meninos do Olodum tiveram, os pensadores do Olodum, João Jorge e a diretoria, acesso a essas coisas de Marcus Garvey, Malcom X. Essa coisa toda do movimento negro deu origem ao samba-reggae que é um momento histórico que não vai se repetir nunca. Não se repetiu e não vai se repetir. No mundo inteiro. O samba-reggae é baiano. Eu vejo isso com otimismo. Eu acho que dá vazão a suas própria influências individuais e nos grupos, individualmente, vai plasmar um tipo de música que só vai acontecer aqui. Eu acho isso extremamente positivo. E mesmo que eu não ache positivo, não há outro caminho, entendeu Bárbara? Eu acho que a soma das influências é que vai fazer a Bahia diferente do Maranhão, de Brasília e do Rio de Janeiro, como vai fazer o Brasil diferente da música reggae que se faz no resto do mundo. Mesmo que eu não achasse, vai ser diferente. Eu acho que a música reggae na Bahia vai continuar. Acho que é um movimento que tem força suficiente pra continuar á margem, entre aspas, “á margem” do mercado fonográfico baiano, que já é uma coisa também pra gente analisar com calma, o mercado fonográfico baiano. Tem condições de continuar produzindo grandes artistas, independente de chegar no mercado, ou não. Porque o Remanescentes foi uma coisa que não se desfez. Pra quem conhece Remanescentes sabe que aquilo foi uma coisa que influenciou tanta gente, né? E que tá tão presente na vida da gente. Então independente de chegar no mercado, ou não, eu acho que a música reggae da Bahia ainda vai produzir muita coisa boa. Existe um mercado de reggae que não chegou ainda no topo, mas que hoje você vê que o reggae se tornou uma referência no mercado, depois de Sine, com a música dele estourada no carnaval.

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