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Reggae · 07 juillet 2003

Cidade de Jah! Confira!

Cidade de
Sério. Diz aí. O que é que a Jamaica tem? Como pode uma minúscula ilha do Caribe ter gerado não apenas uma série de sons divinos (como o ska e o reggae) e um ídolo que só falta ser beatificado (Bob Marley), mas também dança, atitude, filosofia e até cortes de cabelo que se espalharam pelo mundo todo e estão até hoje batendo em nossas portas? Para tentar responder parte dessas perguntas e desvendar o enigma de um lugar que tem uma “mística natural no ar”, como já cantou Marley, veja o cultuado filme jamaicano “Rockers”. Ou melhor, veja, reveja, dê uma olhadinha antes de sair de casa, outra antes de dormir e, se não for muito complicado, durma abraçado com ele. Produzido em 1977 e lançado agora em DVD no Brasil via Trama, “Rockers” é muuuuito legal e funciona como uma espécie de anel mágico. Você bota o disco no dedo, aperta “play”, grita “Jah rastafari!” e mergulha, por cerca de 90 minutos, no quase sempre impenetrável universo jamaicano. Impenetrável mesmo. Para você ver, o filme tem legendas em inglês porque, sem isso, quase ninguém ia entender o patois (idioma) local. A história é a seguinte: Leroy “Horsemouth” Wallace, vivendo ele mesmo, é um baterista de reggae que resolve lutar contra a máfia dos estúdios de Kingston. Para isso, com a ajuda de uma moto recém-comprada, ele resolve distribuir os discos dos seus amigos, evitando os atravessadores. Porém, seu trabalho e o envolvimento com a filha de um magnata local (também mafioso) fazem com que ele tenha sua moto roubada e seja espancado. Depois de se recuperar, ele junta sua turma para correr atrás de vingança e justiça. E acaba se tornando uma espécie de Robin Hood local. Mas, claro, não é só isso. A graça de “Rockers” está na forma como o diretor Theodore Bafaloukos capturou a vida nos guetos de Kingston circa 1977, mesma época em que o punk implodia o rock. Tudo é leve e naturalmente real, das locações às interpretações, sem maquiagens, sem caricaturas. Não há um ator se fazendo passar por um típico negão jamaicano, ou seja, orgulhoso, marrento e gozador. Os que estão ali são os próprios. Cores e sons estão por toda parte. E os detalhes fazem o filme valer ouro. Afinal, boa parte do elenco é formada por reais músicos de reggae. Assim, você vai vendo o filme e cruzando com um Robbie Shakespeare aqui, um Gregory Isaacs ali, um Burning Spear mais à frente. E não se deixe enganar: esses sujeitos são tão geniais quanto qualquer grande nome do jazz ou da soul music, mas nossa miopia e o esmagamento cultural que o Grande Irmão do Norte nos impõe não permite que vejamos isso com clareza. Fazer o quê? Seguir vendo “Rockers”, cuja câmera passeia também por vários estúdios de gravação, por bailes de rua comandados por MCs e movidos pelos lendários sound systems, e até por fábricas de prensagem de vinil. Acredite e faça fé: hip hop, house, drum’n’bass e tantos outros estilos atuais são filhos diretos desse universo. E sem nenhuma pretensão de explicar isso ou aquilo, o filme dá também um foco na cultura rastafari, sua paixão, seu fervor religioso, sua filosofia, suas contradições e sua cativante busca por justiça e redenção. Em todo o filme, o rasta é mostrado como o outsider , o renegado, execrado pela sociedade por causa de seus longos cabelos (as famosas dreadlocks ) e por sua adoração sagrada a uma erva que o homem resolveu chamar de maldita. E não fique vendo tudo à distância. Pode se aproximar da tela. O que está retratado em “Rockers” — que tem um pé em “Orfeu do carnaval” e outro em “Cidade de Deus” — é muito familiar para (quase) todos nós: as favelas, a violência, a musicalidade natural, o futebol, o malandro de rua... Momentos que ficam na mente e valem incontáveis replays: Burning Spear cantando “Jah no dead” a capella . Kiddus-I levando “Graduation in Zion” acompanhado por uma banda que tem Earl “China” Smith (guitarra) e Robbie Shakespeare (baixo). E, acima de tudo, a cena em que “Horsemouth” e um amigo invadem uma festa engomadinha, tiram o DJ da cabine e tocam um reggae na marra. Remove-ya! Cotação do filme? Cinco leões de Judá!

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